English Version

 

 

 

Alfama é um dos bairros mais antigos de Lisboa, habitada desde há muitos séculos por islâmicos, africanos, judeus e lisboetas fechados pela cidade, que corre veloz lá fora.

Aninhada na encosta do Castelo de S. Jorge, enfeita anualmente as suas ruelas, escadinhas e becos abrindo-se aos forasteiros no mês de Junho para festejar o seu santo padroeiro: António de Lisboa, Pádua fica muito ao longe... e o santo teve o seu berço aqui pertinho...

Gostava de partir as bilhas às raparigas, cravos garridos e manjericos cheirosos, como manda a tradição e o povo cumpre!

Craveiros e cravinas penduradas às janelas misturadas com flores de papel abraçam o Bairro: a homenagem surge nas ruas!

Ao longo de gerações e gerações grupos de crianças fazem pequenos tronos garridamente enfeitados com bilhas e cravos onde exibem o seu santoninho, tirando-o constantemente do seu altarzito para lhe acariciarem a calvície e melhor convencerem o transeunte com «um tostãozinho p’ Sant’António» (o euro ainda não entrou na tradição).

O tostão é mesmo para o santo? A resposta invariável já tinha sido dada pelos avós:

- É para ele, mas é p’ra comprarmos doces. - Quem não sabe que o Santatoninho ama as crianças?... ele até anda com uma ao colo...

O cheirinho dos pratinhos de arroz-doce perfumado com casca de limão, a sua cor de ovo-fresco enfeitados a pó de canela, à vontade do freguês: pintinhas, quadradinhos, círculos conseguidos com um copo molhado, pombinhos, corações trespassados ou não, conforme a maré de amores das doceiras...

 O apelo da moedinha torna-se mais vibrante, já cresce água na boca dos bandos de pardalecos.

O tempo rolará e chegará a vez de terem o seu manjerico enfeitado com um cravo de papel cor-de-rosa enquanto solteiras, vermelho ou alaranjados para as casadas e roxo quando os suspiros e ais do passado ainda fazem o coração estremecer e vibrar.

Escolhe-se o manjerico, o cravo e os dizeres escritos em papel recortado, calando bem fundo nos corações enamorados. O manjerico morrerá apesar das mãos desveladas cumprirem o ditado é regar e pôr ao luar, mas o cravinho de papel ficará bem guardado até perder a cor e o brilho da purpurina.

«Quem quer sardinha gorda, é de prata» em cima de estrados, apregoando das suas bancadas, homens e mulheres apontando a canastra, abanando fogareiros a carvão.

Os folgazões não resistem: no pão a pingar ou no prato a escaldar com batata ou «selada» mastigam sardinhas «vivas da costa» empurrando-as com um «copito de três».

É noite de Santo António, é preciso comer e respirar os cheiros que entorpecem os sentidos, dançar e apaixonar-se…

Quando os pés já se arrastam há sempre um «Retiro» com bancos e mesas de madeira com toalhas aos quadradinhos azuis, vermelhos ou verdes.

«Venham todos a Alfama» emociona-se o senhor António Pipi das Sardinhas Assadas que já há setenta e quatro anos faz a festa no seu «Retiro», aninhado junto às Escadinhas de S. Miguel.

Martelam-se bancadas, iluminam-se balões, engalana-se Alfama com os seus arcos de papel e de sonhos, nesta noite mágica que une os corações…

 

English Version

 

 

Voltar à HomePage

 

 

 

 

 

 

Texto e fotografias de Cremilde Barreiros; desenhos do coreto do sr. Pipi de Alfama